António Cruz, 1907-1983
Natural do Porto, frequentou a Escola Superior de Belas Artes do Porto a partir de 1930, tendo obtido diversos prémios no âmbito da sua aprendizagem académica. Obteve também prémios do SNI nos domínios do desenho, da aguarela e da escultura. Foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura , o que o levou a viajar por diversos países europeus ao longo das décadas de 30 e de 40. Conhecem-se muito poucas exposições individuais, destacando-se uma realizada no Porto e em Lisboa em 1939 e uma outra, póstuma, em 1989, na casa do Infante que teve lugar também no Porto. É considerado um renovador da aguarela em Portugal que conseguiu despojar dos motivos anedóticos que a ela andavam sistematicamente associados, para se dedicar ao registo de paisagens em que o factor lumínico é fundamental: como factor de dissolução, ocultação ou revelação das formas. Devido aos inúmeros registos que deixou da cidade do Porto, é incontestavelmente um dos pintores privilegiados desta cidade.
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Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto
António Cruz
![]() | António Cruz 1907-1983 Pintor e escultor |
"António Cruz (...) é sem contestação possível o maior aguarelista português dos tempos modernos. Tirou a aguarela da banalidade para que a tinham arrastado Roque Gameiro e os aguarelistas portugueses. Deu-lhe grandeza, ressonância sinfónica; levou-a até atingir o valor de uma alta expressão sintética e afastou-a da superficialidade habitual. (...)" (Abel Salazar em entrevista a Manuel Lavrador in Sol) |
António Amadeu Conceição Cruz nasceu em 9 de Março de 1907, na Rua Nossa Senhora de Fátima, na freguesia portuense de Cedofeita. Era filho de Avelino da Conceição Cruz e de Luísa da Silva.
Desde cedo manifestou vocação para o desenho. Este artista, na idade adulta, viria a ser considerado o renovador da aguarela portuguesa. As suas paisagens marcantes são dominadas por uma luz que tanto oculta como revela as formas e grande parte delas imortaliza a cidade que o viu nascer, viver e morrer.
Depois da primária concluída, Cruz enveredou pelos estudos industriais frequentando o curso de Condutor de Máquinas (1920), na Escola Infante D. Henrique, Porto, para satisfazer a família.
Mas a arte já o seduzia. Muito mais do que as Noções de Mecânica Geral ou o Desenho de Máquinas. E modelo também já o tinha: o Porto e os seus recantos. Que se nota desde logo nas primeiras obras que produziu, nas quais capta pormenores da paisagem do burgo e seus arrabaldes, de lugares como Ramalde, o Campo Alegre ou Leça do Balio.
No final dos anos vinte (1928) cumpriu o serviço militar na Companhia de Torpedos em Paço de Arcos.
Logo em seguida começou a realizar alguns trabalhos publicitários, ilustrou livros escolares e expôs nas Termas de Vizela e no Casino da Póvoa. Se a primeira destas exposições não obteve sucesso, a segunda teve um resultado surpreendente: impressionado pelo que tinha visto, um turista alemão comprou todas as obras nela expostas.
Em 1930 percebeu que a Arte era, em definitivo, o seu mundo. E que a devia educar.
Nos dois anos seguintes, porque lhe faltavam condições e os pais continuavam sem saber o que o filho fazia, concorre a pensionista do Legado Ventura Terra, para prosseguir os seus estudos. Para isso era necessário um atestado de pobreza, que consegue obter da Junta de Freguesia de Ramalde.
Em 1932, o então estudante da Escola de Belas-Artes recebe o prémio de desenho "José Rodrigues Júnior". A notícia foi publicitada nos jornais e o seu segredo posto a descoberto. No entanto, se o futuro aguarelista temia o desagrado dos pais, isso não aconteceu: é que a distinção era muito honrosa, amenizando a tensão familiar.
No ano de 1933 dedicou-se intensamente ao desenho. Fazia-o nos lugares mais animados da cidade: nos cafés, que naqueles tempos eram apetecidos locais de convívio. No café Vitória, aos Aliados, entretanto desaparecido, retratou fortuitamente um habitué que era um cliente especial. Este, em troca do retrato, deu-lhe 50 escudos e um cartão de recomendação para o Dr. Alfredo Magalhães, seu futuro mecenas, que lhe viria a conseguir um atelier num lugar especial: na Maternidade de Júlio Dinis.
Abalado pela morte do pai, em 1934, e lutando com a falta de dinheiro, viu-se obrigado a interromper os estudos, fixando-se temporariamente na Ponte da Barca, onde passou todo o tempo a pintar. E um invulgar gesto de solidariedade ocorreu: setenta e dois alunos da Escola de Belas-Artes do Porto, entre os quais se destacam Dominguez Alvarez, Guilherme Camarinha, Augusto Gomes, Laura Costa, Ventura Porfírio e Agostinho Ricca, solicitou ajuda, num abaixo-assinado dirigido à Direcção da Escola, para que António Cruz continuasse os estudos. Esse mesmo grupo de alunos, em 1935, endereçou o mesmo pedido à Câmara Municipal do Porto, que lhe concedeu uma bolsa mensal, de "trezentos escudos", depois suportada com o apoio da Junta de Freguesia do Bonfim.
Em 1937, à boleia num cargueiro, partiu para a Grã-Bretanha, onde visitou museus e pintou. De regresso ao Porto, terminou o Curso de Pintura da Escola de Belas-Artes, ainda com bolsa de estudo da Câmara Municipal do Porto.
Amigos e admiradores, como o Dr. Alfredo Magalhães, Joaquim Lopes, Aarão de Lacerda, o Dr. Melo Alvim, o Engº Brito e Cunha e D. Isabel Guerra Junqueiro, organizaram, em 1939, a sua primeira exposição individual, no Salão Silva Porto. Em Dezembro desse ano, a exposição foi levada para a Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, sendo inaugurada pelo Chefe de Estado e pelo Ministro da Educação Nacional. Enquanto ela decorreu, o artista foi alvo de várias homenagens.
Além do Curso de Pintura, António Cruz frequentou o de Escultura da ESBAP, em 1942, alcançando a 1ª medalha no curso com a tese "Uma estátua equestre a D. Afonso Henriques". Em 1945, apresentou a prova de final de curso com a obra "Adoração dos Pastores", obtendo a classificação de 18 valores.
Em 1944 foi-lhe concedida uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, para aperfeiçoamento dos estudos de aguarela, ameaçada por rumores que o davam como comunista, mas salva pela pronta intervenção de altas figuras, como o Prof. Reynaldo dos Santos.

Esta popular exposição gerou, como nunca até então, um grande assédio por parte dos jornalistas para que o artista concedesse entrevistas, prática a que era avesso. Logo em seguida participa na exposição "Os Anos 40 na Arte Portuguesa", em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Em 1983, realiza a última mostra da sua arte. Uma exposição individual na Galeria Diagonal, em Cascais, entre 15 de Abril e 5 de Maio. Morreu no Porto, em 29 de Agosto desse ano.
Durante toda a sua carreira participou num grande número de exposições colectivas, em diversas galerias e instituições, nos mais variados pontos do país, e recebeu inúmeras distinções pelas suas pinturas e esculturas. Em 1956 fora figura principal no filme O Pintor e a Cidade, de Manoel de Oliveira, apresentado no Festival de Veneza.
Uma delícia este apontamento sobre ANTÓNIO CRUZ.Não sabia que tinha morrido há tão poucos anos e que tinha sido amigo do meu amigo ARMANDO ALVES.Dizem que o Abílio Guimarães é um seguidor de A.CRUZ, gosto muito das aguarelas dele, mas gosto porque gosto, não sou especialista de arte.PARABÉNS PELO TRABALHO .COMO SEMPRE, A VIEIRA PORTUENSE AJUDANDO AS ARTES E A CULTURA.OBRIGADA.
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